Colonialismo e História IV

A HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA E A HISTÓRIA DOS POVOS COLONIZADOS

A historiografia portuguesa anterior a 1974 caracterizou-se pela constância da recusa em dar qualquer autonomia à história dos colonizados, que permaneceram como um objecto de manipulação da história portuguesa, nunca como agentes e detentores de uma história própria. A escrita portuguesa da história não pôde/não quis reconhecer a existência histórica dos outros povos como sociedades organizadas e complexas, portadoras de culturas seculares. É certo que não tinha motivos teóricos ou práticos para inflectir a sua posição, dada a maneira como as demais ciências humanas abordavam as populações colonizadas. Por essa razão, a escrita da história portuguesa ficou amarrada aos mitos da ideologia colonial e ao elogio dos factos heróicos dos portugueses, não esquecendo o seu papel fundamental na tarefa considerável de «civilizar» os Outros.

Limitações da historiografia dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa

Os muitos contactos dos portugueses com outros mundos e outros homens constituíram uma das preocupações constantes da historiografia portuguesa, ocupando um espaço privilegiado na construção de uma História de Portugal centrada nos descobrimentos e na expansão ultramarina, onde a história das relações multiseculares dos portugueses com os outros povos foi sobretudo, dos finais de Oitocentos até ao último quartel do século XX, uma evocação mecânica dos heróis portugueses, heroicidade que implicava mobilizar negativamente os Outros.

Apesar da apologia do valor da imparcialidade na escrita da História, muitos historiadores portugueses continuaram sensíveis às exigências da doutrinação política verificadas no século XIX e durante a Primeira Republica, reforçadas pela dureza do colonialismo e da censura do Estado Novo. Essa relação íntima entre produção historiográfica e ideologia ao serviço do projecto político colonial caracterizou-se por uma sintonia dramática que unia apoiantes e opositores do regime na recusa da autonomia histórica e cultural dos povos colonizados. Tal transversalidade, que englobava toda sociedade portuguesa, continua a exigir uma reflexão serena e rigorosa dos caminhos da nossa história.

Foi pois no espaço historiográfico dos descobrimentos e da expansão portuguesa, timidamente alargado ao império colonial que as directivas político-ideológicas censuravam e proibiam, que se assistiu à emergência do Outro, sendo indispensável sublinhar a diferenciação das leituras portuguesas – aliás, na esteira das congéneres europeias – entre o africano e o asiático, para falar apenas daqueles que constituíam os colonizados do império português do século XX. Esta situação que não pode ser escamoteada, põe em evidência a necessidade de autonomizar geográfica e culturalmente os estudos relativos à dominação colonial, para compreender as linhas estruturantes do colonialismo, as suas formas de actuação e de consolidação de hierarquias teóricas e metodológicas que caracterizaram a fabricação da historiografia ultramarina portuguesa.

Se as últimas décadas do século XIX foram marcadas por inovações na escrita da história de Portugal, traduzindo a interferência das principais linhas de pensamento europeias nas leituras de historiadores como Alexandre Herculano, Teófilo Braga, Oliveira Martins (Matos,2012,153-158), foi no século XX que a consolidação da historiografia dos descobrimentos e da expansão portuguesa se verificou, recorrendo à investigação e à publicação de textos destinados à glorificação do projecto colonial, que, apesar das diferenças ideológicas e políticas, gerava consensos entre os historiadores.

Jaime Cortesão, cujos ideais republicanos lhe vieram a custar o exílio, ocupou-se do capítulo relativo à expansão portuguesa na História de Portugal de Damião Peres (1928-1954), incluindo a integração dos mestiços nos quadros da administração colonial entre as causas da decadência do Império do Oriente. Também a História da Expansão Portuguesa no Mundo (1937), dirigida por António Baião, Hernâni Cidade e Manuel Múrias, contou com a escrita de Duarte Leite e Veiga Simão. Só após a II Guerra Mundial se viriam a acentuar as clivagens, com a adesão de intelectuais e historiadores a um discurso oficial reelaborado no quadro das teses do lusotropicalismo, que começavam a suscitar o interesse político nacional. Raros historiadores como António Sérgio e Vitorino Magalhães Godinho aspiravam a compreender o passado nacional e imperial à luz de uma história universal e comparativa capaz de pôr em causa a retórica da glorificação das conquistas (Curto, 2009).

“Durante decénios (…) a autêntica história ultramarina desenvolveu-se sobretudo à margem das instituições e realizações oficiais, e até por elas coartada”, pois “ vigorava o mito de um povo (…) que nunca se conspurcara pela avidez e pela crueldade; escondiam-se o tráfico de escravos” e os documentos incómodos e organizavam-se “a Exposição do Mundo Português em 1940 e as Comemorações Henriquinas de 1960 [que] pouco serviram o progresso da investigação histórica e as visões inovadoras destes processos tão decisivos na formação do mundo (…). Ocultavam-se os processos económicos, sociais e culturais da expansão oceânica. Não interessava a história como indagação da busca da verdade, reduziam-na a retórica comemorativista e justificadora da «grandeza» imperial” (Godinho, 1990, 13-14). Esta citação de Vitorino Magalhães Godinho, o grande intelectual português que desde os anos 40 trabalhara para a renovação da historiografia da expansão portuguesa – através da publicação de documentação, da crítica das fontes e de uma reflexão teórica e metodológica elaborada à luz da historiografia europeia contemporânea (Annales) -, dando-lhe uma dimensão internacional marcada pela perspectiva comparativa e a pela constante integração na problemática da construção do mundo moderno, põe em evidência o uso político e ideológico da História ao serviço do Estado Novo.

Os anos 1959 a 1962 marcaram o fim de um período de grandes publicações como a História dos Descobrimentos de Duarte Leite, Os Descobrimentos Portugueses de Jaime Cortesão, e ainda, no registo da cartografia, a Portugaliae Monumenta Cartographica, que permitiram abrir caminho a novos estudos. Três obras inovadoras, de menor ambição e dimensão, surgiram, revelando novas perspectivas temáticas e metodológicas: Aspectos e Problemas da Expansão Portuguesa, de Orlando Ribeiro, Introdução à História dos Descobrimentos, de Luís de Albuquerque e a censurada Economia dos Descobrimentos Henriquinos, de Vitorino Magalhães Godinho, não esquecendo os avanços no campo da cartografia de Armando Cortesão. Mas registe-se um facto singular: a questão da organização autónoma da história dos Outros nunca constituiu uma verdadeira preocupação dos historiadores portugueses, mesmo se a perspectiva universalista de Godinho pretendia abrir caminho a “ uma nova maneira de olhar o mundo (…) [ao reconhecimento da] unidade dos homens na diversidade das suas sociedades e civilizações” (1990, 55).

Refiram-se, no entanto, três intelectuais portugueses, oriundos de formações diferentes, cujos estudos fizeram emergir novas direcções de investigação: Ilídio do Amaral e os seus estudos que cruzam a geografia e a história dos espaços colonizados, António Carreira que trabalhou a tão manipulada questão da escravatura dos africanos e Avelino Teixeira da Mota, que, de certa forma, inaugurou uma leitura mais autónoma da história dos povos africanos da Guiné, que visitara nos anos 50, acompanhado de Raymond Mauny, o historiador francês que, tendo sido quadro colonial, viria, como outros europeus, a rever as perspectivas historiográficas coloniais, a valorizar as fontes orais, a interessar-se pela história dos povos africanos, integrando-a no ensino universitário francês.

Ao longo dos anos sessenta, a Europa, liberta da epopeia colonial, iniciava um percurso marcado por uma revisão conceptual e metodológica que dava conta da crescente consciência intelectual da indispensabilidade do trabalho interdisciplinar, que viria a permitir uma ‘descolonização’ do conhecimento e o desenvolvimento autónomo das historiografias dos antigos povos colonizados. Historiadores estrangeiros como os ingleses Charles Boxer e David Birmingham, o americano Joseph Miller, o belga Jan Vansina, o francês René Pélissier que se debruçaram sobre questões históricas da colonização portuguesa não conheceram qualquer eco, mas apenas censura, no espaço português.

A historiografia portuguesa, apesar de algumas vozes incómodas e de raras publicações denunciando a manipulação da história colonial – como pequenas formulações introduzidas no Dicionário da História de Portugal dirigido por Joel Serrão (1963-1971) e as contribuições de intelectuais portugueses exilados como Barradas de Carvalho, António José Saraiva, Luís de Matos e sobretudo Alfredo Margarido – manteve-se cega perante as mudanças epistemológicas mundiais. Embrenhada na teia das legitimações ideológicas e políticas do Estado Novo, a escrita portuguesa da história limitava-se a rejeitar a exclusividade da justificação religiosa da colonização, afirmando que as relações entre portugueses e africanos eram dominadas por razões económicas, mas continuava a recusar o suporte ideológico do racismo (Oliveira Marques, [1972],1986, II, 532).

 

Pedro Pereira Leite
Pedro Pereira Leite
Researcher and professor. He had his PhD. on museology in 2011, with the title “Muss-amb-ike Homeland: The commitment on musicological… Ler mais

OpenEdition sugere que esta publicação seja citada da seguinte forma:
Pedro Pereira Leite (1 de Julho de 2015). Colonialismo e História IV. Global Heritages. Recuperado em 16 de Julho de 2026 de https://doi.org/10.58079/p2so


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